sexta-feira, maio 15, 2009

2071 - fica na rua dos defensores

Uma rua em Lisboa, a Defensores (...).
Uma rua que atravessa e é atravessada por poder, dinheiro, homens palermas de fato e gravata, mulheres ansiosas, em roupa, apertadas, jovens da escola, calças de ganga, a caminho de nada ou de tudo.
Uma rua... como tantas ruas.
Nessa rua, uma placa, um nome com aquelas duas palavras, ali em cima, mais ou menos, naquela cor.
Uma rua, uma placa, uma mercearia.
À nossa mercê.
Mais que uma mercearia, uma lição de História, uma história.
A história de um menino que carregava cabazes para as casas das «senhoras», uma história com cinquenta e tal anos.
Na Lisboa dos anos cinquenta existiam senhoras e criadas, moços de fretes e mercearias finas que levavam as novidades* a casa.
O mesmo moço, o mesmo sorriso, a mesma preocupação com o cliente.
O moço que se fez patrão, a mulher do moço (estamos casados há quase quarenta anos) que é alma e corpo... alma porque o inspira, corpo porque o cuida nela.
Ele, ela e outro.
O outro é o «zeca faz tudo» do meu amigo Figueiredo ou o «sexta-feira» de Robinson Crusoe, é como se fosse nosso filho, veio-nos pedir, demos-lhe trabalho, sorriu e aceitou, está connosco há mais de dez anos, é muito trabalhador, podia ser mais um a dormir em cartões.
Não conheci o outro (estava nas entregas) conheci-a, conheci-o, dois olhares, quatro olhos penetrantes, duas pessoas com muitas histórias... com uma história de vida, de solidariedade, de caminho andado, do menino com o cabaz às costas, ao empresário que sorri, de terminal de pagamento automático na mão, que nos diz: confirme, verde, código, verde.
O outro continua a efectuar entregas ao domicílio e a carregar com os packs de cartão, plástico e indiferença que envolvem o que comemos e bebemos.
Ele, o moço, o empresário, continua a viver o sonho de: olhe esta fruta tão boa, olhe qu'esta marca é mais cara mas é muito boa...
Ela, a mulher, faz a caixa, faz a vida, toma conta dele, da loja e de tudo.
Sorri.
Entre o cheiro da fruta fresca e do dinheiro contado, ele, ela e o outro são uma lição de vida.
A vida de dois homens, uma mulher e uma república a matá-los com impostos.
* fruta e legumes da época/da estação

2 Comments:

Blogger O Cidadão abt said...

De início afigurava-se uma nova versão da ode dos UHF à Rua do Carmo...
Seguidamente, desenvolve-se uma descrição com elevada qualidade literária das asfixias a que se encontra submetido o comércio tradicional.
À asfixia das grandes superfícies e à asfixia da sobrecarga de impostos... gente séria, simples e "pequena" labutando no dia a dia para conseguir cumprir com as suas "obrigações" sem a sustentabilidade das estratégias subsidiodependentes dos hiper que, de cinco em cinco anos mudam de nome, num constante sugar dos impostos resgatados aos primeiros.
O calcanhar de Aquiles da globalização.
Dezenas destas micro-empresas têm encerrado as suas funções, dia após dia, numa rendição à luta desigual entre David e Golias!
São estes milhares de micro-empresas que contribuem para a sustentabilidade da máquina fiscal, que o ministro das finanças se vai apercebendo tardiamente, trimestre após trimestre, quando lhes vão faltando debaixo dos pés!
Até os "cotas" do governo já raciocinam como os jovens inexperientes, em função do presente, para depois, trimestralmente constatarem que a crise é mais grave do que fazia crer... como o miolo de uma noz é tão comparado ao cérebro humano de alguns governantes...

sábado, maio 16, 2009 2:41:00 da tarde  
Blogger pedro oliveira said...

Caro Cidadão,

Muito agradecido pelo inteligente comentário.
As empresas, as micro-empresas, todas as empresas, são pessoas.
Neste caso, ela Maria e ele António.
Maria e António, estes não são passeados em andores mas constroem em cada dia o milagre da sobrevivência.

sábado, maio 16, 2009 5:18:00 da tarde  

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