735 - fábula para acender uma esperança

O sono do esposo parece-lhe por de mais tranquilo. Aproxima-se, toca-lhe o rosto com os dedos, estava morto.
Metido no pijama, os olhos redondos e ingénuos semiabertos, não se assemelha a herói tombado no campo de batalha, a personagem maniqueísta símbolo do mal e do obscurantismo, SS nazista, chefe da Gestapo armado de chicote. Apenas um pobre homem morto estendido na cama, igual a tantos outros.
Lembra alguém. D. Hermínia vai buscar uma face no passado - parece o jovem segundo-tenente tímido e apaixonado que ela conhecera havia muito tempo, num outro tempo; declamava versos suplicando um beijo. D. Hermínia de repente se recorda, começa a chorar baixinho.
AMADO, Jorge, Farda Fardão Camisola de Dormir, Fábula para acender uma esperança, s.l., Publicacões Europa-América, s.d. [escrito em Pedra do Sal, Baía entre Janeiro e Junho de 1979] pp. 152-153
2 Comments:
de quando em vez, consegues certas «coisas». assim não vale. não dá para ironizar... gostei bastante deste extracto de um livro que nunca li.
uma fábula. uma mulher. um sono profundo. um homem. símbolos do mal.fardas.uma causa. a pertença.um jovem. um rosto.
........
fiquei com vontade de ouvir ler o resto...
Recordar è fàcil para quem tem memória,esquecer è dificil para quem tem coração.
Ficou registado este pequenino extracto.
Enviar um comentário
<< Home