segunda-feira, maio 05, 2008

1313 - general(izações)

"sabe que a Mariazinha tem noventa e cinco anos e ainda canta, canta aqui ao senhor deputado, canta" - e desejar veemente que a terra se me abrisse à frente e enviasse a senhora Maria para o Céu, onde certamente está, e a mim para o Inferno, porque entre as suas piores penas não está assistir à humilhação alheia, de quem já não tem defesa do seu querer. Talvez a senhora Maria gostasse daquela última atenção e seja eu que esteja enganado, mas é por essas e por outras que abomino o populismo e não sirvo para certas coisas.
1.ª generalização
A vida acaba aos noventa ou aos noventa e cinco anos.
A vida ensinou-me que a lucidez não tem prazo de validade, Manoel Oliveira, por exemplo.
A saída era espectacular, mas muito, muito, rápida. Nos breves momentos que durava, um mar de raparigas, mulheres jovens e na meia-idade, o maior número de gaspeadeiras que alguma vez vi na vida, saía como um [sic, versão papel] mola das portas interiores e corria, literalmente corria, para os portões e desaparecia pelas ruas e caminhos, em motocicletas, algumas em carros. Dez minutos depois, não havia ninguém e os papéis dados à pressa no meio daquelas almas fugidias desapareciam com elas tão depressa como a noite se punha.
2.ª generalização
Poético mas ineficaz.
Horário de inverno despega-se das fábricas de noite.
Horário de verão despega-se com sol, bastante sol.
Presumo que José Pacheco Pereira [JPP] se refira às eleições para o Parlamento Europeu de Junho de 1999. Junho... tão depressa como a noite se punha, às 18H00?
A corrida tinha uma razão de ser, iam para casa o mais cedo possível cuidar dos filhos e do marido, cuidar da casa, não tinham tempo a perder com políticas.
3.ª generalização
Gajas, portanto. Cuidar dos filhos e do marido (companheiro, camarada?) cuidar da casa, não perder tempo com políticas.
Pergunto-me, será a política uma perda de tempo? Será a política e a intervenção política que nos permite cuidar ou não dos filhos, do marido, da casa e fundamentalmente de nós próprias. Só tendo tempo para a política teremos tempo para nós próprias... a não ser que a tese de JPP seja excluir as gajas da política (este parágrafo está no feminino, o meu lado gaja, portanto).
Vai menos vezes ao cabeleireiro, arranja-se menos, compra menos roupa, tudo coisas que parecem fúteis para quem tem tudo, mas que representam um caminho para uma menor auto-estima, um desleixo que pode vir a crescer com os anos, se passar definitivamente de operária a dona de casa. É um caminho invisível, um passo atrás em que ninguém repara a não ser as próprias.
4.ª generalização
Vejamos se a gaja ia ao cabeleireiro, comprava roupa e tal, deixou de o fazer e ninguém repara a não ser a própria, era, obviamente, dinheiro desperdiçado.
A trabalhadora da Yasaki Saltano que disse que ia aproveitar a "oportunidade" para completar o 12.º ano tem toda a razão e aponta o caminho, mas nem por isso deixa de ter todas as dificuldades e não é certo que possa vir a poder utilizar as suas novas qualificações.
5.ª generalização
Nada é certo, caro JPP, aliás nem é certo que o Ensino Público Obrigatório sirva para algo mais que uma espécie de luta para ver quem fica com o telemóvel.
Estas mulheres não vão educar os seus filhos da mesma maneira, vão reproduzir melhor o Portugal antigo do que preparar o novo. Elas sentem que falharam, tinham algumas ilusões que perderam. Mas nós falhamos mais se não temos a consciência de fazer alguma coisa. Porque se pode, na acção cívica, no voluntariado, no mundo empresarial, na política, fazer muita coisa por estas mulheres.
6.ª generalização
No voluntariado, no mundo empresarial, na política, logo as mulheres têm todo o interesse em perder tempo com a política. O marido, os filhos e casa que se amanhem. Gajas ao poder, já.

1 Comments:

Blogger Rosa Oliveira said...

Ainda hei-de comentar, este «post». Quando tiver tempo... vou picar o ponto, agora.

sexta-feira, maio 09, 2008 9:25:00 da manhã  

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