275 - olhar, ver e sentir

Ao olharmos esta imagem, ela parece-nos banal, aparentemente, nada se destaca.
Quando vemos esta imagem, ela mostra-nos um fundo de terra queimada e no centro um coelho bravo.
Um animal que apesar da sua rapidez não conseguiu triunfar na sua última corrida.
Que morte horrível teve, primeiro o pêlo a arder, cada vez correria mais rápido, procurando por entre o fumo que a vida não fosse morte.
Após o pêlo queimado... foi a carne, por mais que corresse a morte estava em todo o lado... ardia-lhe o dorso, ardia-lhe o ventre, ardiam-lhe os olhos, as orelhas e as patas... tudo dentro e fora dele era fogo, foi dor.
O que se sente, está para além do que se olha, do que se vê.
Na dor deste animal sinto a dor de todos os que sofreram com os incêndios.
Na dor deste animal, sinto compaixão dos «animais» que a provocaram e dos outros que por incapacidade, negligência e incompetência não a conseguiram evitar.
texto e foto: Pedro Oliveira
Este texto (com pequenas alterações) foi publicado no jornal Abarca em Outubro de 2003.
O coelhinho foi fotografado na freguesia de Montalvo em Agosto de 2003 (numa altura em que a terra, ainda, estava quente).
Este texto faz sentido, agora, antes que nas televisões se banalizem as imagens do país a arder e as declarações políticas a falarem da «falta de meios».
--------------------------------------------------
Juro nunca me render
«Pelas lágrimas dos pobres
e o pão escasso que comem
e o vinho rude que bebem
juro nunca me render
Por meus pais e meus avós
e os avós dos avós deles,
com o seu suor antigo,
juro nunca me render
Pelas esperanças que tenho
pelas certezas que traço
pelos caminhos que piso
juro nunca me render
E até pelos inimigos,
que odeiam a liberdade,
e por isso não são livres,
juro nunca me render»
Armindo Rodrigues
4 Comments:
este texto fará sempre sentido, neste país onde a incompetência e os interesses, andam de "braço dado" quando se trata de fogos florestais.
Pedro, as tuas palavras foram duras de ler. Não sei se será por adorar animais, mas, quando descreveste o animal em chamas...phénix! Custa.
O problema é que fala-se muito e a cada verão, parte do nosso país morre um pouco mais.
Parabéns pelo texto.
bjs
O problema é que muitos são solidários, teoricamente, mas, na prática...
O ano passado no início de Agosto dirigia-me de carro para o Crato e junto ao Pego estava um incêndio a iniciar-se, mesmo, à beira da estrada. Parei, outros pararam e conseguimos com ramos suster as chamas até os bombeiros aparecerem.
Ora, o ponto é este: por cada carro que parou devem ter passado para aí uns dez que não pararam, inclusivé, parou um condutor que ficou todo entretido a tirar fotografias com o telemóvel.
Não me julgo especial por ter parado, apenas, fiz a minha obrigação... será que aqueles que continuaram o seu caminho poderão dizer o mesmo?
Fiquei impressionada com a imagem e a descrição tão realista da morte do animal; a morte pelas chamas é algo horrível e cruel, de facto. Sou especialmente sensível no que diz respeito a crianças e animais...
Em relação ao teu post sobre o incêndio no Pego, a verdade é que a maior parte das pessoas gosta de "ver" e comentar as desgraças alheias, para pensar que, afinal, não está assim tão mal. quando toca a ajudar...são muito poucos os que o fazem ( como tu, neste caso)... sou uma pessimista, eu sei.
Enviar um comentário
<< Home