sexta-feira, julho 22, 2011

0115/2011 - rúben buarque de hollanda e as mulheres

Tem algumas características que não são comuns na poesia, como a forma como escreve sobre as mulheres. Diria que é quase única, é quase como se escrevesse no feminino.
rúben de carvalho (programador da festa do avante)
chico, francisco buarque de hollanda é um génio.
tal como todos os génios, apesar das imensas qualidades que possui, tem defeitos.
um dos maiores defeitos de chico é, precisamente, a forma como, metaforicamente, aproveita a mulher (se aproveita das mulheres).
poderia falar das mulheres de atenas, de geni, da moça que vê a banda passar mas centrar-me-ei na mulher da feijoada completa, a quem chico diz:
Mulher, não vá se afobar;
Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar.
Ponha os pratos no chão e o chão tá posto
sensibilidade feminina, como se escrevesse no feminino?
bota sensibilidade nisso, camarada rúben.
talvez fosse importante lermos o que maria velho da costa nos diz sobre as mulheres:
Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas da escola com latas e buchas (...). Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo (...). Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado.
posto isto, chico diria: e vamos botar água no feijão.
eu direi: vamos botar juízo na cabeça de alguns opinadores.
as «mulheres» de chico buarque são personagens-tipo como a alcoviteira de gil vicente, não são as mulheres reais que se cruzam connosco na rua... na vida.
fontes & alambiques
feijoada completa   (vídeo)
feijoada completa (letra)

7 Comments:

Blogger MM said...

Pedro,
Guardei sempre a impressão de que as Mulheres de Atenas são cantadas satíricamente. Não se percebe nenhum tom sarcástico na forma como Chico canta a música mas, tive sempre essa impressão. N'A Banda não existe por lá nada que atente contra o feminino. Ou melhor, com esforço pode-se encontrar mas não é nada de muito evidente ...
As outras, não as tenho presente. Contudo, percebo o que dizes, e subscrevo em parte. Nas músicas do Chico, pese embora se perceba constante elogio à Mulher, esse elogio é sempre disposto num contexto de desejo, ou posse. É normal, diria. Mas percebo o que dizes: é sempre a namorada de alguém, o amor de alguém, ou o 'objecto' de desejo de alguém, e quase nunca é a mulher em si, sozinha. Neste sentido, entendo e subscrevo. Agora não diria que o Chico é insensível perante as mulheres, muito pelo contrário. Falo das músicas e falo da sua acção concreta, pelo menos aquela mais visível (completamente desconhecedor de elementos românticos da sua vida privada): naqueles mágicos duetos ou canções partilhadas com Bethânia, ou com Gal, a sua pose, a forma como interagem, ele demonstrava sempre um respeito imenso por elas. Por vezes, quase acanhado.

Amo-o muito, é um génio como dizes. E a sua obra musical ficará para sempre. Razão do amor, essa, em exclusivo, dado que da pessoa Chico Buarque conheço muito pouco. Compôs e desenhou músicas simplesmente perfeitas, perfeitas. O trato da Língua Portuguesa, os versos, as letras, as melodias, tudo. Ele tem 3 ou 4 músicas que são simplesmente do outro mundo e não existe nada que se lhes assemelhe. À Flor da Pele e a Construção - opinião pessoal - acima de quaisquer outras. Isto sem contar com as músicas que escreveu e compôs para outros.
Abraço forte Pedro, como sempre.

sexta-feira, julho 22, 2011 10:00:00 da manhã  
Blogger MM said...

Só mais uma coisa importante que ficou para trás: o Chico Buarque embora nascido e criado num lar profundamente intelectual e embora educado noutras raízes que não exclusivamente Brasileiras, é filho do Brasil. E toda a sua obra, ou 99,9% dela é 'dedicada' justamente à Mãe: o Brasil. E uma das características da cultura Brasileira é justamente os traços que por norma orientam as relações entre géneros. A mulher Brasileira, a título de exemplo, não é como a Portuguesa, ou a Espanhola, ou a Inglesa. Vou dizer o seguinte sem grande cuidado e não vou pensar em palavra mais apropriada do que aquela que vou usar, embora ela exista, porque esta que usarei está longe de ser a melhor: são mais dadas. Intuitivamente a mulher Brasileira entrega-se facilmente ao desejo, ao sexo, ao amor. E não vou agora destrinçar sexo ou amor; parto do princípio que falamos em exclusivo de relações normais e quadros onde mulheres e homens apaixonam-se e partilham portanto intimidade. A mulher Brasileira é menos calculista, menos interesseira, racionaliza menos, não obstante todas as (erradas) concepções que por norma se fazem dela, ou sobre ela (e neste particular Portugal e a sociedade Portuguesa é imbecil e ignorante quanto baste para alimentar falsos preconceitos e estereótipos). Pedro, falo de tudo, da norma, não falo obviamente de ti, ou de pessoas inteligentes que rejeitam errados estereótipos. Estou agora a falar de coisa completamente distante do tópico. A mulher Brasileira olha, gosta, e cobiça. Comporta-se tal e qual como a generalidade dos homens. Neste sentido, não é calculista. E esta é uma qualidade. De onde vem o preconceito, talvez, e agora só sobre Portugal ou os Portugueses: a prostituição, claro. Há muitas prostitutas Brasileiras em Portugal, e a partir dessa (factual) realidade constrói-se um perfil de mulher Brasileira simplesmente absurdo e muito ignorante. Há generalizações que fazem sentido, essa não é obviamente uma delas. Seria como se os Franceses na década de 80 ou 90, a partir da emigração Portuguesa com destino a França, estereotipassem a Portuguesa como mulher-a-dias e o Português como picheleiro. Ora não faz sentido claro, apesar de ser verdade (julgo) que 70 ou 80% dos emigrantes Portugueses em França nessas décadas ia para lá fazer isso mesmo. É uma generalização que não pode evidentemente ser feita.

Mas isto nem é muito importante, a mensagem principal é mesmo esta: a mulher Brasileira instintivamente engendra com muito mais facilidade o romance. Digo mais, gosta de agradar (no bom sentido), e entende tal situação como normal. A partir desta noção, podemos entender as letras do Chico com mais naturalidade. Pese embora repita: compreendo e subscrevo parcialmente a mensagem do post.

sexta-feira, julho 22, 2011 10:20:00 da manhã  
Blogger pedro oliveira said...

MM,

Adoro o Chico, há letras e músicas dele que deveriam ser emolduradas e penduradas nos museus como obras de arte que são.
Considero-me um priveligiado por já ter tido oportunidade de assistir a um concerto de Chico, ouvindo-o a sussurar palavras cantadas enquanto dedilhava o violão.
A questão que abordo no «post» não é o Chico, é o modo como um destatado dirigente e militante comunista vê o Chico e a mulher.
Para o partido comunista (sei que estou a generalizar, coisa que detesto) a «mulher» não tem existência autónoma; é a camarada do homem... o homem pensa e a mulher bota a água no feijão.
É sobre isso que fala, tenta falar o «post».
Chico não tem sensibilidade feminina, coisa nenhuma, é um homem sensível (são coisas diferentes) que escreve sobre mulheres e trata-as de acordo com toda uma utensilagem prática e intelectual que possui.
Quer queiramos, quer não, Chico é um homem com 67 anos que nasceu, cresceu e viveu numa sociedade «machista», ele é produto dessas circunstâncias e é essa «base de dados» que ele utiliza, trabalhando-a, adaptando-a, embelezando-a.
Considero Chico um génio pela forma como utiliza a língua portuguesa, tanto nas palavras ritmadas da lírica, como nos inspirados parágrafos da prosa, isso não dá é o direito ao camarada Rubén vir dizer que o Chico é muito sensível, tipo gaja... como se a sensibilidade fosse uma unicórnia que apenas as amazonas conseguissem montar.

Um grande abraço... de leão.

sexta-feira, julho 22, 2011 7:48:00 da tarde  
Blogger manuel marques said...

Excelente ponto de vista.
Abraço.

sexta-feira, julho 22, 2011 9:26:00 da tarde  
Blogger pedro oliveira said...

*privilegiado*

sexta-feira, julho 22, 2011 9:38:00 da tarde  
Blogger pedro oliveira said...

Um abraço, camarada, considero-me afortunado/privilegiado por ter recebido tão simpático comentário.

(não perca amanhã o novo Sporting vs. «a velha senhora» no Reino do Canadá)

sexta-feira, julho 22, 2011 9:42:00 da tarde  
Blogger MM said...

Pedro,
O comentário diz tudo, subscrevo por inteiro e não discordo em nada (a utensilagem prática estará, deduzo, relacionada com a esfera de posse, ou desejo, onde se sentem coisas boas pelo que se deseja mas, sendo desejo, é entendido como "parte"). Compreendo por inteiro, e a mensagem deixa perceber desde o princípio a "diferente" (para esta) forma como "vês" a mulher. Revejo-me nessa forma, forma que não é forma, uma vez que não se escolhe. Identico abraço, e confesso-me desejoso para logo ver o jogo. Esperemos que o Sporting faça um bom jogo e construa confiança (estes jogos servem
isso memsmo), para arracarmos bem quando for a sério.

sábado, julho 23, 2011 8:16:00 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home

não é o fim, nem o princípio do fim, é o fim do princípio