quinta-feira, maio 04, 2006

321 - leigos para o desENVOLVIMENTO... (segunda parte)



O prometido é devido ou mais vale tarde que nunca... reler este.

Ao contrário daquilo que esta página sugere os Leigos são (pelo menos eram) um espaço de liberdade onde as diferenças são (pelo menos eram) aceites.

Efectuei a formação dos Leigos em 2000/2001 (corresponde a um ano lectivo, com fins-de-semana de voluntariado em diferentes organizações de cariz social. Eu estive a trabalhar com senhoras deficientes mentais e foi das experiências mais gratificantes que tive até hoje... pessoas capazes de te cuspirem a comida para a cara [como as crianças], capazes, também, de te acariciarem, de transmitirem afecto e reconhecimento como ninguém) numa altura em que questionava muita coisa, acho que não deixei de questionar, pois não?

Estas palavras foram escritas há cinco anos, voltaria a escrevê-las sem alterar uma vírgula:

«Voluntariado e desenvolvimento.

A proposta de trabalho que nos foi solicitada era no sentido de efectuarmos uma reflexão sobre aquelas palavras.

Voluntariado pressupõe, um acto e uma escolha livre, algo que se faz porque se quer. Ser voluntário é estar disponível para servir, é estar aberto a outras pessoas, é pensar que aquilo que nos propomos fazer tem a ver connosco e com a nossa liberdade individual e, fundamentalmente, com os outros, com aqueles para os quais a nossa acção é dirigida.

É curioso como nunca tínhamos pensado nisso, mas só em grupo, só em sociedade se pode ser voluntário. O voluntariado é sempre direccionado, parte de um indivíduo integrado numa determinada sociedade e tem como objectivo servir esse grupo ou outros a ele ligados, directa ou indirectamente.

Desenvolvimento - de todos os sinónimos que podíamos escolher para esta palavra, optamos por fazer crescer, tornar mais forte... será esse o objectivo do desenvolvimento? Fazer crescer? Tornar mais forte? ... podíamos acrescentar, tornar mais iguais a nós.

Desenvolver, vamos falar deste tema não em termos gerais mas em termos concretos, isto é, vamos falar da nossa sociedade dita ocidental ou do hemisfério norte em oposição à do hemisfério sul, como muito bem retrata Quino, dos que vivem de cabeça para baixo, em oposição aos que vivem nos Estados Unidos ou na Europa de cabeça para cima.

Dissemos em oposição? Sim, de facto era isso mesmo que queríamos dizer, em confronto. São duas maneiras diferentes de encarar o sentido da vida. Nós (os de cabeça para cima) preocupamo-nos como viver. Eles (os de cabeça para baixo) preocupam-se como sobreviver.

Estamos em presença de dois interesses, aparentemente, antagónicos, dum lado os dos de cabeça para cima, do outro os dos de cabeça para baixo [ os dos de, soa mal, mas, é mesmo assim]. Será que estes interesses são conciliáveis? Se são, como?

Parece-nos que há uma resposta óbvia - aproximarmo-nos - como? fácil, basta que uns baixem a cabeça e que os outros a levantem.

Desenvolver pode não ser sinónimo de modernizar. Existem maneiras diferentes das sociedades se organizarem.

Na nossa opinião ser voluntário para desenvolver só faz sentido se encararmos o desenvolvimento como um abraço que se dá e se recebe, quando abraçamos alguém, damo-nos, mas, também, recebemos, quando o abraço termina separamo-nos e desenvolvemo-nos.

Foi essa a grande lição que retiramos da formação dos Leigos, o "envolver" e deixar "des envolver", não só ajudar com a nossa presença e o nosso testemunho, mas, trabalhar de modo a que a semente que plantamos e ajudamos a germinar possa crescer com o apoio e o carinho daqueles a quem se destina.»

para os que tiveram paciência de ler tudo, uma palavra: obrigado (espero que tenha valido a pena)

fotografias obtidas em 2006.Abril.22 na auto-estrada a caminho de Alvito, estava lindo o céu, não?

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Mt.º bem Pedro. Um ano lectivo de voluntariado?
Notável, os meus parabéns.

sexta-feira, maio 05, 2006 12:27:00 da manhã  
Blogger pedro oliveira said...

A formação corresponde (correspondia) a um ano lectivo.
Reuniões à quarta-feira antecedidas de jantar comunitário, onde confeccionávamos as nossas próprias refeições. As reuniões eram para aí das 19H00 às 22H00/23H00.
O voluntariado (das senhoras e tal foram, apenas, três dias: sexta, sábado e domingo) para além disso tínhamos outros fins-de semana de reflexão e tal.
Em simultâneo exercia a minha actividade profissional (obviamente, esta formação era segredo, pois, implicaria abandonar a minha promissora carreira profissional para ir para África ou Timor durante dois anos, encontrar-me e encontrar outros) consegui conciliar tão bem as duas coisas que no final de 2001 fui promovido por mérito, mal sabiam as minhas chefias que me estava a preparar para abandonar, apesar disso o meu empenho foi o mesmo de sempre [gaba-te, cesta, que vais à vindima].

sexta-feira, maio 05, 2006 12:47:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Promissora carreira profissional??
Promoção por mérito??

Muito bem. Eu já suspeitava. Além de poeta é um bom e reconhecido profissional. Então, continua assim.

sexta-feira, maio 05, 2006 12:00:00 da tarde  

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