337 - a cruz e os sonhos

Será necessária imaginação para interpretar esta ilustração.
Imaginemos uma pessoa que morreu (um velho, eram sempre velhos), um cemitério a quatro ou cinco quilómetros duas igrejas em cada uma das pontas do percurso, um caixão para transportar duma ponta à outra.
Naquele tempo (início dos anos 70) [a electricidade chegou à minha terra em 1971] não existiam carros funerários, os mortos eram transportados em ombros e mais tarde no «carro dos mortos».
Organizava-se o funeral, à frente ia um menino vestido de branco empunhando uma cruz, esse puto era eu, com cinco, seis anos.
Não tenho muitas memórias desse tempo, recordo que já nessa altura ajudava à organização da coisa (afinal eu era um profissional experiente) normalmente, as famílias andam um pouco atarantadas, tinha-se (tem-se?) muita dificuldade em lidar com a morte, como se o encontro com a ceifeira não fosse a única certeza que possuímos.
Não fiquei, minimamente, afectado com o meu primeiro emprego remunerado (a remuneração variava entre 1$00 e 5$00, normalmente, os pobres pagavam mais [toda a gente dava o que queria] pois, aos ricos o dinheiro faz mais falta [assim me iniciei no marxismo / capitalismo, sentindo-o, para o mesmo trabalho, recompensa diferente].
Acreditava (não acredito) que funcionava como intercessor, ajudava o senhor que estava dentro do caixão (eram sempre senhores, as senhoras nunca morrem, ainda hoje é raro) a irem para o céu.
A imaginação é uma coisa fantástica numa criança e durante aqueles quilómetros fazia o filme todo.
O caixão descia à terra, as mulheres choravam, ah e tal eras tão bonzinho (alguns eu sabia que eram velhacos, mas, não dizia nada).
Umas pázadas de terra e pronto.
Voltávamos costas e a alma (a alma era tipo os fantasmas dos desenhos animados, um lençol com dois olhos) subia para o céu... simples e eficaz.
Acho (tenho a certeza) que o menino que fui continua a habitar esta carcaça velha de orelhas grandes, às vezes ouço-o segredar-me: as coisas são simples Pedro, não compliques, aquilo que fica de nós é a nossa capacidade de nos darmos, é a maneira como tocamos os outros, o importante não é quem somos, é aquilo que de nós sobreviverá nas pessoas a quem nos damos...
Tenho tanta pena, de tantas vezes não o escutar, de amordaçar (matar) as crianças que vivem em mim (de mim).
Como passei de carregador de cruz a vendedor de sonhos?
É uma longa história... fui operário fabril (fábrica de automóveis), ajudante de electricista, vendedor de livros (porta-a-porta), vendedor de inquéritos ( a médicos), segurança, professor, tenho um curso de construção e manipulação de fantoches, efectuei (com este e outros meninos) o levantamento sócio-económico do meu concelho, trabalhei num posto de combate a incêndios (coordenava a saída de helicópteros, avisava os bombeiros... [conheci nesse trabalho uma pessoa fantástica, o comandante Jofre, que a terra te seja leve, comandante]), trabalhei em animação cultural com crianças (tempos livres)...
Agora estou bancário, vendo sonhos a crédito...
Detestaria que alguém me definisse pela profissão que tenho, sou um pouco de todas as profissões que exerci (esqueci-me de dizer: soldado da república) de cada uma delas colhi ensinamentos que moldaram a pessoa que sou, a profissão não me define, como poderia?
Sou alguém que deixou de acreditar na cruz, mas, continua a acreditar nos sonhos.
Imaginemos uma pessoa que morreu (um velho, eram sempre velhos), um cemitério a quatro ou cinco quilómetros duas igrejas em cada uma das pontas do percurso, um caixão para transportar duma ponta à outra.
Naquele tempo (início dos anos 70) [a electricidade chegou à minha terra em 1971] não existiam carros funerários, os mortos eram transportados em ombros e mais tarde no «carro dos mortos».
Organizava-se o funeral, à frente ia um menino vestido de branco empunhando uma cruz, esse puto era eu, com cinco, seis anos.
Não tenho muitas memórias desse tempo, recordo que já nessa altura ajudava à organização da coisa (afinal eu era um profissional experiente) normalmente, as famílias andam um pouco atarantadas, tinha-se (tem-se?) muita dificuldade em lidar com a morte, como se o encontro com a ceifeira não fosse a única certeza que possuímos.
Não fiquei, minimamente, afectado com o meu primeiro emprego remunerado (a remuneração variava entre 1$00 e 5$00, normalmente, os pobres pagavam mais [toda a gente dava o que queria] pois, aos ricos o dinheiro faz mais falta [assim me iniciei no marxismo / capitalismo, sentindo-o, para o mesmo trabalho, recompensa diferente].
Acreditava (não acredito) que funcionava como intercessor, ajudava o senhor que estava dentro do caixão (eram sempre senhores, as senhoras nunca morrem, ainda hoje é raro) a irem para o céu.
A imaginação é uma coisa fantástica numa criança e durante aqueles quilómetros fazia o filme todo.
O caixão descia à terra, as mulheres choravam, ah e tal eras tão bonzinho (alguns eu sabia que eram velhacos, mas, não dizia nada).
Umas pázadas de terra e pronto.
Voltávamos costas e a alma (a alma era tipo os fantasmas dos desenhos animados, um lençol com dois olhos) subia para o céu... simples e eficaz.
Acho (tenho a certeza) que o menino que fui continua a habitar esta carcaça velha de orelhas grandes, às vezes ouço-o segredar-me: as coisas são simples Pedro, não compliques, aquilo que fica de nós é a nossa capacidade de nos darmos, é a maneira como tocamos os outros, o importante não é quem somos, é aquilo que de nós sobreviverá nas pessoas a quem nos damos...
Tenho tanta pena, de tantas vezes não o escutar, de amordaçar (matar) as crianças que vivem em mim (de mim).
Como passei de carregador de cruz a vendedor de sonhos?
É uma longa história... fui operário fabril (fábrica de automóveis), ajudante de electricista, vendedor de livros (porta-a-porta), vendedor de inquéritos ( a médicos), segurança, professor, tenho um curso de construção e manipulação de fantoches, efectuei (com este e outros meninos) o levantamento sócio-económico do meu concelho, trabalhei num posto de combate a incêndios (coordenava a saída de helicópteros, avisava os bombeiros... [conheci nesse trabalho uma pessoa fantástica, o comandante Jofre, que a terra te seja leve, comandante]), trabalhei em animação cultural com crianças (tempos livres)...
Agora estou bancário, vendo sonhos a crédito...
Detestaria que alguém me definisse pela profissão que tenho, sou um pouco de todas as profissões que exerci (esqueci-me de dizer: soldado da república) de cada uma delas colhi ensinamentos que moldaram a pessoa que sou, a profissão não me define, como poderia?
Sou alguém que deixou de acreditar na cruz, mas, continua a acreditar nos sonhos.
8 Comments:
Pedro,
Este é, de longe e para mim, o teu melhor post.
Gostei de ler, de sentir o pulsar em cada das informações que ali relatas. Qualquer comentário que eu gostasse de fazer (seriam muitos) estragaria o que apreendi na leitura que fiz, por isso não direi mais nada.
Um bom dia para ti.
Fiquei novamente sem palavras, até o sumo de laranja que bebo nesta altura dexou de escorrer pela garganta para eu não me distrair e perder as tuas palavras ... A tua vida! Asna concordo, foi, sem duvida, o melhor texto publicado por ti, Pedro! Um excelente olhar para tráz, com o pensamento no futuro! Parabêns
E já dizia o outro "O sonho comanda a vida"
Bom post!
O 9º parágrafo («Acho (tenho a certeza)que o menino...»)diz tudo.Lindo! Não direi, por isso, coisa alguma.
... sempre que um homem sonha o mundo pula e avança.
É muito gratificante ler-vos, não, não é pelos elogios, sinto que captaram muito bem aquilo que procurei transmitir.
Quem escreve poderá ter algum mérito, mas, o esforço da leitura, o procurar encontrar ritmo e musicalidade nas palavras, procurar descobrir sentimentos escondidos dentro das palavras é o mérito maior e esse é vosso.
Vou "digerir" bem este "post" e, depois, voltarei para comentá-lo como ele merece.
Um bem-haja, Pedro
É batido mas: " O sonho comanda a vida"
Quando deixarmos de sonhar, morremos por dentro. Perdemos as forças para continuar a ter esperança e a travar cada batalha como se fosse a primeira.
O SONHO
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama
De preferência... sem cruz!
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