Estou à procura de um homem que não conheço que nunca foi tão eu mesmo quando desde comecei a procurà-lo. Teria ele meus olhos,minhas mãos e todos esses pensamentos semelhntes Aos destroços deste tempo? Estação de mil naufràgios o mar deixa de ser mar, para tomar àgua gelada dos túmulos. Mas,mais longe,,quem sabe mais longe? Uma menina canta a contragosto enquanto a noite reina sobre as àrvores, pastora em meio a seus carneiros. Venham arrebatar do grão de sal a sede que nenhuma bebida poderà mitigar. Com as pedras,um mundo de devora para ser,como eu,de parte alguma.
este post não devia ser, também, um pensamento profundo?
o estrangeiro, ser, morte, todo...lembrei-me de Camus e apetece-me deixar aqui um pedaço da Introdução por Sartre em O Estrangeiro de Albert Camus. apetece-me. se não quiser, já sabe: delete.
« (...) É que o silêncio, como diz Heidegger, é o modo autêntico da palavra. Só se cala aquele que pode falar. Camus fala muito, em O Mito de Sísifo, chega a tagarelar. E, contudo, confia-nos o seu amor do silêncio. Cita a frase de Kierkgaard: «O mais seguro dos mutismos não é calarmo-nos, mas falarmos, e ele próprio acrescenta que «um homem é mais um homem pelas coisas que cala do que pelas coisas que diz.» Por isso, em O Estrangeiro, tomou o caminho de se calar. Mas como calar-se com palavras? Como traduzir, com conceitos, a sucessão impensável e desordenada dos presentes? Esta aposta implica o recurso a uma nova técnica. Que técnica é essa? Tinham-me dito : «é Kafka escrito por Hemimgway.» Confesso que não encontrei Kafka. As vistas de Camus são todas elas terrestres. Kafka é o romancista da transcendência impossível: para ele, o universo está carregado de sinais que não compreendemos; há um avesso do cenário. Para Camus o drama humano é, ao invés, a ausência de toda a transcendência: «Não sei se este mundo tem um sentido que me ultrapassa. Mas sei que não conheço esse sentido e que, de momento, me é impossível conhecê-lo. Que significa para mim uma significação fora da minha confição? Só posso compreender em termos humanos. O que eu toco, o que me resiste, eis o que compreendo.» Para ele não se trata, pois, de encontrar arranjos de palavras que dêem a supor uma ordem inumana e indecifrável. O inumano é simplesmente a desordem, o mecânico. Nada de vesgo, nele, nada de inquietude, nada de sugerido : O Estrangeiro oferece-nos uma sucessão de vistas luminosas. Se elas expatriam, é somente devido ao número delas e à ausência de um laço que as unisse. Manhãs, claros fins de tarde, tardes implacáveis, eis as suas horas favoritas; o Verão perpétuo de Argel, eis a sua estação. A noite não tem qualquer lugar no seu universo. Se fala da noite é nestes termos. « (...) acordei com estrelas sobre o rosto. Subiam até mim ruidos campesinos. Aromas de noite, de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré». Quem escreveu estas lihas está o mais longe possível das angústias de Kafka. Está bem tranquilo no coração da desordem; molesta-o talvez a cegueira teimosa da natureza, mas tranquiliza-o, o seu irracional não é senão um negativo: o homem absurdo é um humanista, só conhece os bens deste mundo.»
4 Comments:
qual país? (perguntam)
O Estrangeiro, obviamente (julgo que se chama Reino do Estrangeiro ou será república?)
Estou à procura
de um homem que não conheço
que nunca foi tão eu mesmo
quando desde comecei a procurà-lo.
Teria ele meus olhos,minhas mãos
e todos esses pensamentos semelhntes
Aos destroços deste tempo?
Estação de mil naufràgios
o mar deixa de ser mar,
para tomar àgua gelada dos túmulos.
Mas,mais longe,,quem sabe mais longe?
Uma menina canta a contragosto
enquanto a noite reina sobre as àrvores,
pastora em meio a seus carneiros.
Venham arrebatar do grão de sal a sede
que nenhuma bebida poderà mitigar.
Com as pedras,um mundo de devora
para ser,como eu,de parte alguma.
(Edmond Jabès)
«ser de parte alguma»
ser parte do todo, ser.
este post não devia ser, também, um pensamento profundo?
o estrangeiro, ser, morte, todo...lembrei-me de Camus e apetece-me deixar aqui um pedaço da Introdução por Sartre em O Estrangeiro de Albert Camus. apetece-me. se não quiser, já sabe: delete.
« (...) É que o silêncio, como diz Heidegger, é o modo autêntico da palavra. Só se cala aquele que pode falar. Camus fala muito, em O Mito de Sísifo, chega a tagarelar. E, contudo, confia-nos o seu amor do silêncio. Cita a frase de Kierkgaard:
«O mais seguro dos mutismos não é calarmo-nos, mas falarmos, e ele próprio acrescenta que «um homem é mais um homem pelas coisas que cala do que pelas coisas que diz.» Por isso, em O Estrangeiro, tomou o caminho de se calar. Mas como calar-se com palavras? Como traduzir, com conceitos, a sucessão impensável e desordenada dos presentes? Esta aposta implica o recurso a uma nova técnica.
Que técnica é essa? Tinham-me dito : «é Kafka escrito por Hemimgway.» Confesso que não encontrei Kafka. As vistas de Camus são todas elas terrestres. Kafka é o romancista da transcendência impossível: para ele, o universo está carregado de sinais que não compreendemos; há um avesso do cenário. Para Camus o drama humano é, ao invés, a ausência de toda a transcendência: «Não sei se este mundo tem um sentido que me ultrapassa. Mas sei que não conheço esse sentido e que, de momento, me é impossível conhecê-lo. Que significa para mim uma significação fora da minha confição? Só posso compreender em termos humanos. O que eu toco, o que me resiste, eis o que compreendo.» Para ele não se trata, pois, de encontrar arranjos de palavras que dêem a supor uma ordem inumana e indecifrável. O inumano é simplesmente a desordem, o mecânico. Nada de vesgo, nele, nada de inquietude, nada de sugerido : O Estrangeiro oferece-nos uma sucessão de vistas luminosas. Se elas expatriam, é somente devido ao número delas e à ausência de um laço que as unisse. Manhãs, claros fins de tarde, tardes implacáveis, eis as suas horas favoritas; o Verão perpétuo de Argel, eis a sua estação. A noite não tem qualquer lugar no seu universo. Se fala da noite é nestes termos. « (...) acordei com estrelas sobre o rosto. Subiam até mim ruidos campesinos. Aromas de noite, de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré». Quem escreveu estas lihas está o mais longe possível das angústias de Kafka. Está bem tranquilo no coração da desordem; molesta-o talvez a cegueira teimosa da natureza, mas tranquiliza-o, o seu irracional não é senão um negativo: o homem absurdo é um humanista, só conhece os bens deste mundo.»
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