domingo, abril 03, 2011

0075/2011 - zé pedro e a geração à rasca

a equipe de reportagem do santamargarida [sm] numa entrevista exclusiva com o homem que inventou a expressão: geração à rasca.
sm - zé pedro [zp] sente-se à rasca como a geração à rasca?
zp - não, não me sinto à rasca, aliás, nem aprecio a expressão, tal como não me sentia à rasca em 1999 quando a criei (à expressão: geração à rasca). estar à rasca é um estado de espírito, repara, passaram uma dúzia de anos e tudo aquilo que apontei nesse artigo continua actual, nomeadamente, a preocupação com a educação e com a empregabilidade.
sm - gostarias que te tivessem atribuído a autoria da expressão?
zp - terei, certamente, muitos defeitos, mas essa vaidadezinha «do fui eu que fiz», «fui eu que disse», «olhem para mim que sou tão lindo», julgo que não tenho. devo ser dos únicos portugueses que têm um blog há mais de cinco anos e não possuem uma conta no facebook. respondendo à pergunta, sim, porque acho que é, intelectualmente, honesto, citarmos aqueles em quem nos inspiramos, por outro lado, é-me indiferente...
sm - no teu artigo és muito crítico com premiar-se o mérito, porquê?
zp - essa é a tua interpretação. numa leitura aprofundada daquilo que escrevi poder-se-á chegar a outras conclusões. aquilo que disse há doze anos e continuo a pensar agora, é que não faz sentido uma câmara comunista incentivar a colocação de alunos em quadros de honra, criando uma competição não desejável entre meninos e meninas de proveniências muito diversas. em vez de premiar o mérito (dessa maneira, com dinheiro, diplomas, beijinhos e fotografias no boletim municipal) dever-se-ia incentivar o companheirismo, a integração, a ajuda entre os «melhores» e os «piores» alunos. julgo que é um disparate total «pagarem-se» as boas notas dos melhores alunos.
sm - achas que foi esse facilitismo comunitário e camarário que conduziu à actual «geração à rasca»?
zp - tenho a certeza que sim. esses miúdos (estou a generalizar, algo que não gosto de fazer) nunca tiveram de lutar por nada, cresceram com corn flakes e televisão no quarto, com play-stations, portáteis, telemóveis, i-pods, i-pads, bikes, motinhas e carrinhos (e outras coisas que eu nem sei o nome). com roupa de marca e saídas à noite. cresceram sem o serviço militar obrigatório no horizonte mas com a risonha carreira de estudantes universitários, em universidades e ou em cursos manhosos; depois acabaram o curso, voltaram a casa, depararam-se com o pai desempregado, a mãe doméstica e eles sem dinheiro para carregarem o telemóvel, para a gasolina do carro, para, para, para...
sm - achas então que a culpa da «geração rasca» estar à rasca é deles?
zp - não. acho que é nossa. minha. tua. da geração que tem agora quarenta e tal anos e (estou, novamente, a generalizar) criou, está a criar os filhos numa redoma de vidro e a endividar-se para lhes comprar dessencialidades. como dizem os americanos: no pain, no gain; sem sofrimento não há recompensa, uma geração que conseguiu tudo de mão beijada, dificilmente, conseguirá adaptar-se  a  uns tempos de luta e de sofrimento que se avizinham, que se adivinham. pior ainda, quando beberam nos bancos da escola o veneno do individualismo e da fotografia no quadro de honra.
sm - obrigado pelas tuas palavras, queres deixar alguma sugestão ao sm?
zp - sim. escreve algo sobre isto.
fontes & alambiques

2 Comments:

Blogger manuel marques said...

Geração á rasca! Geração á rasca foi a minha,apenas tinha a guerra no Ultramar e pouco mais.Esta geração que se intitula como tal foi a geração que tudo teve e nada fez.Comprou tudo feito,viveu na mama e agora queixam-se.Se há um culpado acusem os pais pois foram esses que lhes deram o peixe sem os ensinar a pescar.

Abraço.

segunda-feira, abril 04, 2011 7:12:00 da tarde  
Blogger pedro oliveira said...

Nem mais camarada, um grande abraço.

segunda-feira, abril 04, 2011 7:16:00 da tarde  

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