1713 - a sério, muito a sério
Uma manhã, como outras, jornais, café e meia-torrada (julgava eu).
- Então, 'tás bom? Anda, pago-te um café...
- 'Tou, 'tou bem, deixa 'tar, eu pago... queres café, também?
- Não, vou beber uma mini, eu pago, eu é que convidei, posso-te pagar, não posso?
(podia responder várias coisas, optei por não responder nada, percebi bem o alcance da coisa, a superioridade e a inferioridade, os que ficam e os que partem, os que vivem e os que sobrevivem)
- Então, desenrascaste-te bem em Lisboa? O teu puto, sempre, entrou?
- (...)
- Ainda bem, ainda bem e o trabalho?
- Sabes que eu trabalhei em muitos sítios, em (...), na (...) depois a tropa, quando saí da tropa fiquei (...), sei lá, trabalhei, também, em (...) e no (...) é pá este trabalho agora é uma responsabilidade diferente, lembras-te do puto que morreu?
(lembro, lembro-o, era um miúdo fantástico, com um olhar determinado e inteligente)
- Mais ou menos, tenho uma ideia...
- Sabes que foi tudo abafado, dados alterados, aquilo que consta nos documentos não foi o que aconteceu...
Acabei o café, (...) acabou a mini, despedimo-nos sob um céu cinzento escuro, cor de fato de executivo sem escrúpulos.
Chovia.
Chovia como lágrimas choradas pelo céu, a terra cheirava a molhada.
A minha mão esquerda segurava jornais, com a direita limpei a água doce e salgada do rosto, peguei na pena e escrevi.
3 Comments:
Chorar é diminuir a profundidade da dor .
Bonjour...!
Este «post» enigmático, fez-me pensar muitas cousas... penso que nem foi pelo cinzentismo do dia, em terno de executivo sem escrúpulos, nem do dito que, afinal, não foi como se conta. O aroma saudoso (meu) da terra molhada e meia-torrada, numa manhã, como outra(s), mais não são que «cousas cheias de sol». De resto, há coisas que não são para contar, mas para... sentir.
1. Sim
2. Pois
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